Missa em Caracas.
Antenor Barros Leal
A tarde estava quente. mas a missa na Catedral de Nossa Senhora da Ajuda era fundamental. Era um costume que aprendera com sua mãe. E todas sextas feiras era parte de seu dia. José a esperava do lado de fora. Na moto, novinha, japonesa. Ele estava ansioso para a mostrar a
amiga sua nova aquisiçao. Sentiu alguma ansiedade no ar. Não sabia a razão.
O assunto principal deixaria para mais tarde. envolvia suas vida pessoais, seus futuros como namorados ou quiças como marido e mulher. Ele sabia que ela sabia. Ou desconfiava que havia algo além do que a simples amizade. O toque de suas mãos era diferente das outras pessoas.
O sino tocou. Mais alguns minutos ela sairia de cabeça baixa, mas à sua procura. Tinha chovidoum pouco e as ruas estavam ainda molhadas, o que forçava guiar com mais cuidado. Caracas era uma cidade mais ou menos preparada para motos. Não havia nenhuma rusga entre motoqueiros e os automobilistas. Desde que não houvessem abusos.
Pepe, como era conhecido, estava feliz pelos progressos no trabalho. a nova função o deixavamais livre, com menos escritório e mais rua, mais ar, mais sol. era tudo que queria
Maria de la Concepcion era o nome dela. Enfermeira. Bonita. 23 anos e filha mais nova de um velho policial. Estava feliz com seus dois empregos.
De manhã caminhava pouco mais de um kilómetro para chegar a casa de D. Fermínio Gonzalez, um ex-senador, com 85 anos de idade e necessitado de uma cuidadora durante as vinte e quatro horas do dia. Ela cuidava dele entre sete e meio dia. As tres entrava no outro emprego conseguido pelo Senador com seus prestígios reconhecidos. No Palácio Miraflores, residencia do Presidente da Venezuela, trabalhava como uma das dez moças que, alienadamente, cuidavam dos aposentos do Presidente. Arrumar o quarto, preparar os lençóis, secar o banheiro. Sentir o perfume deixado pelo chefe da nação era um prazer tão grande como a honra de fazer o serviço.
Eram altamente preocupantes as tarefas e os cuidados que envolviam a simples missão de limpar a suite presidencial. Desde a entrada no Palácio, com as revistas feitas pelas policiais
encarregadas da segurança, ate o momento da ida aos aposentos com a vigilância constante, iniciar o trabalho em sí era o menor dos deveres. Todos os dias, entre quatorze e vinte horas, estava de prontidão para, se indicada, fazer o seu trabalho. Às sextas entrava mais tarde. Era simples: preparar a cama, ver as condições de limpeza do banheiro, toalhas brancas, os chinelos do chefe, o estoque da geladeira - agua mineral sem gás, francesa, sempre. O uísque ficava sempre no mesmo lugar e a quantidade de gelo tinha que ser sempre a mesma. Só viu o
presidente por duas vezes. Muito rápido. Apenas respondeu o gentil boa noite que recebeu. Era uma sensação maravilhosa.
O Potomac, mais uma vez, tinha congelado. A vista do carro era curiosa. Mesmo não dando para ver muito, pois o trafego era perigoso, nas paradas dos cruzamentos os olhares se dirigiam para a imensa massa branca, desafiadora e perigosa.
Rodomack Sveliano, um servio que emigrara ainda jovem para os USA, dirigia seu Buick pensando na missão que havia recebido de seus chefes na CIA. Químico de profissão, cedo passou para o mundo da espionagem. O Presidente da Venezuela havia chamado o colega americano, em plena ONU, de diabo, de demônio, de monstro. Ele vai pagar caro. Foi a frase final que ouviu na sala de reuniões.
Beck. Alfred Beck era o nome completo do chefe da missão. Havia durante os anos sessenta morado em Caracas. Era assessor do encarregado dos negócios da embaixada americana. Os negócios envolviam tudo. Exportação de petróleo, situação das companhias americanas na Venezuela e suas intimas relações com os poderosos da época. Casado com uma venezuelana, Alfred falava um espanhol perfeito. Sua infancia na California, o ajudara muito no aprendizado. Os meninos da Escuela N S de Guadalupe eram seus companheiros de futebol e de hablar.
Um dos colegas de Los Angeles tinha entrado para um seminário e agora era pároco de uma linda igreja em Caracas. Onde Concepcion ia sempre se confessar e assistir, contrita, a missa das sextas, onde o sermão a emocionava sempre. D. Lauro de Almendra y Dios era o padre perfeito. Falava pouco mas dizia muito.
Era assunto comum entre ela e Pepe: o sonho de morar nos Estados Unidos. Um tio da Concepcion estava em Miami ha mais de trinta anos e, bem de vida, ajudava os parentes. Era padrinho dela e a convidava sempre para se mudar. Nada mais difícil, nos tempos do Comandante, do que conseguir um visto para os USA.
Alfred sempre se comunicava com o padre Lauro, principalmente, quando ele voltava de férias a Los Angeles para as festas com a familia. Foi fácil pedir. Mais facil ainda conseguir. Na primeira semana de janeiro jantou com o velho amigo e pediu-lhe ajuda. Precisava de alguém de confiança em Caracas
Nos momentos anteriores a missa daquela sexta feira D. Lauro perguntou a Concepcion sobre seus sonhos de se mudar. Continuam? Sim, mas como está dificil…O padre sabia de tudo sobre ela. Onde trabalhava. Onde morava. Foi fácil dizer que poderia ajudá-la a transformar o sonho em realidade.
O sorriso dela contagiou Pepe. “A missa foi boa, hein? A moto nova nem foi notada até que sentou e colocou o capacete rosa comprado especialmente pra ela. Foram a um pequeno bar onde sempre comiam uma pizza antes de levá-la ao palácio. Ele ouviu encantado o segredo dela. Dois green cards era tudo que precisavam. A partir daquela conversa não eram mais amigos. Eram cúmplices e namoravam firme. Florida, precisamente Clearwater Beach, onde morava um velho amigo que estava muito bem de vida, era seu sonho.
O motorista do Embaixador, por coincidência, conhecia a igreja e o padre. Foi ele que entregou o mimo da embaixada ao pároco. Todos os anos o embaixador mandava um presentinho para o reverendo. Americano, filho de venezuelanos, ia sempre as festas comemorativas do seu país e "los secretas" nunca desconfiaram da paróquia.
Rodo, era assim que os mais íntimos o chamavam, tinha sido, durante seus anos sérvios, uma autoridade definitiva em descobrir formulas indolores de eliminação de inimigos. Guardas - chuvas com estiletes, facas com pontas “vivas" e outras tantas geringonças mortíferas. Foi o que a CIA mais gostou do seu curriculum vitae. A sua missão era simples: como matar o comandante sem chamar atenção. Passou dias estudando a personalidade da vítima. Como viajava ao exterior. Em que hotéis ficou hospedado nos últimos anos. Foi a New York. Paris. Londres. Moscou. Rio.
Hospedava-se nos mesmos hotéis. E com alguns dólares conseguia saber dos costumes da vítima. O que bebia. A que horas dormia. Se só ou acompanhado. Agua com ou sem gás. Whiskey
ou vinho. Deixava a cama arrumada ou não. O cartão de crédito, sem limite, permitia a ele todos confortos e aparencias. De atleta a executivo. De comportado, a homem da noite. Quando voltou a Washington já tinha seu plano perfeito. Uma gota apenas de um composto de polônio, misturado ao veneno da aranha teia de funil, a fêmea, australiana, seria bastante para
matar um ser humano. Em alguns meses após a ingestão. Tinha sido sua tese de formatura e nunca havia tido uma oportunidade de aplicar na prática. Estava ansioso
A partir daquele fim de semana tudo giraria em torno da Concepcion. A colocaçãodo “ob" passou a ser muito importante. Afinal de contas tudo dependeria de como passar pela dureza da segurança. A seringa, com êmbolo, agulha e a gota, não passava de um centímetro. Auto destrutiva, a pequena máquina da morte era resultado de anos de esforço na identificação de materiais plásticos de alta resistencia e com desempenho à prova de qualquer situação. As instruções eram claras. Não deveria tomar um susto quando injetasse a gota na garrafa de agua mineral, sem gás. Evian, sempre. A agua se tornaria, de imediato, branca como se tivesse recebido leite. Era a prova de que estava tudo certo. Apenas cinco segundos e voltaria à sua transparencia habitual. Logo depois iria para o banheiro e um jato de água quente destruiria o invento.
A menstruaçao chegou, como previra, na quarta feira, e nos dois dias seguintes o sangue jorraria na quantidade certa para que o absorvente desse às seguranças, tranquilidade para não exigir a retirada total das roupas. Já era amiga das encarregadas da “revista” e a chefe cubana adorava dividir os "panes de jamon” que trazia de regalos.
O Comandante tinha viajado a semana inteira. Uma visita às areas de petróleo que
estavam sendo reformadas, com a substituição das velhas bombas por equipamento novo vindo do Irã ( mas produzidas na Alemanha), e com financiamento chinês, o deixara muito cansado. Só recebeu os auxiliares mais chegados e, cedinho, se recolheu aos aposentos.
Exatamente às tres horas a moto novinha do Pepe deixou a feliz namorada no portão de serviços do Palácio. Ele tremia um pouco. Afinal de contas o futuro do casal estava sendo decidido naquela tarde e a vida dela também. Mas acalmou rápido. Na garupa havia rezado muito, pedindo a Nossa Senhora de Guadalupe, da qual era devota, proteção e paz para fazer bem o seu trabalho e garantir o futuro sonhado.
A cubana a olhou, com fome como sempre e recebeu os docinhos esperados. Trocou de roupa e junto com as outras meninas esperou, com muita fé, que fosse escolhida para preparar o quarto do Chefe. Dolores de Assuncion, a cubana, meteu a mão na caixa (onde guardava os nomes das mucamas para o sorteio) e pronunciou a palavra mais esperada: Concepcion, para os aposentos do chefe. Elza Allures, para a sala de jantar. Cristina Alvear, para a cozinha. As outras sete poderiam ir pra casa.
Havia colocado dois absorventes e o ob. Adaptar a seringa dentro do pequeno canudo de algodão não tinha sido difícil. Retirar, sim, era muito complicado. Mas havia treinado bastante e em dois segundos estava lavando a peça e caminhando para o frigobar. Susto maior não poderia ter quando a porta foi aberta e o guarda-costa do Presidente perguntou se estava tudo bem. Sim, tudo ok. O brutamontes saiu e a porta da pequena geladeira deixou ver as garrafas que ela várias vezes arrumou. Pegou a primeira delas e, como um raio, injetou a agulha. A áqua ficou branca e transparente em um piscar de olhos. O calor que a gota gerava servia também para selar o plástico e evitar qualquer vazamento. Na pia um jato dagua muito quente destruiu a seringa.
Repôs a garrafa e caminhou serena para arrumar os travesseiros, tres de cada lado. Ligou a televisão no canal preferido do Chefe, fechou as cortinas, ajeitou os chinelos. As toalhas sempre muito brancas ficavam ao lado do roupão, com os símbolos da pátria. Os sabonetes e cremes eram sempre novos, assim como a escova de dentes. Tudo cercado de cuidados merecidos pelos temores dos tempos. A banheira ficava enchendo, enquanto fazia as outras obrigações e esperava o momento da temperatura chegar aos 28 graus determinados para espalhar os sais perfumados.
