terça-feira, 3 de abril de 2018



Missa em Caracas.
                                                          Antenor Barros Leal

A tarde estava quente. mas a missa na Catedral de Nossa Senhora da Ajuda era fundamental. Era um costume que aprendera com sua mãe. E todas sextas feiras era parte de seu dia.  José a esperava do lado de fora. Na moto, novinha, japonesa.  Ele estava ansioso para a mostrar a
amiga sua nova aquisiçao. Sentiu alguma ansiedade no ar. Não sabia a razão.

O assunto principal deixaria para mais tarde. envolvia suas vida pessoais, seus futuros como namorados ou quiças como marido e mulher. Ele sabia que ela sabia. Ou desconfiava que havia algo além do que a simples amizade. O toque de suas mãos era diferente das outras pessoas.

O sino tocou. Mais alguns minutos ela sairia de cabeça baixa, mas  à sua procura. Tinha chovidoum pouco e as ruas estavam ainda molhadas, o que forçava guiar com mais cuidado. Caracas era uma cidade mais ou menos preparada para motos. Não havia nenhuma rusga entre motoqueiros e os automobilistas. Desde que não houvessem abusos.

Pepe, como era conhecido, estava feliz pelos progressos no trabalho. a nova função o deixavamais livre, com menos escritório e mais rua, mais ar, mais sol. era tudo que queria
Maria de la Concepcion era o nome dela. Enfermeira. Bonita. 23 anos e filha mais nova de um velho policial. Estava feliz com seus dois empregos.
De manhã caminhava pouco mais de um kilómetro para chegar a casa de D. Fermínio Gonzalez, um ex-senador, com 85 anos de idade e necessitado de uma cuidadora durante as vinte e quatro horas do dia. Ela cuidava dele entre sete e meio dia. As tres entrava no outro emprego conseguido pelo Senador com seus prestígios reconhecidos.  No Palácio  Miraflores, residencia do Presidente da Venezuela, trabalhava como uma das dez moças que, alienadamente, cuidavam dos aposentos do Presidente.  Arrumar o quarto, preparar os lençóis, secar o banheiro. Sentir o perfume deixado pelo chefe da nação era um prazer tão grande como a honra de fazer o serviço.
Eram altamente preocupantes as tarefas e os cuidados que envolviam a simples missão de limpar a suite presidencial. Desde a entrada no Palácio, com as revistas feitas pelas policiais
encarregadas da segurança, ate o momento da ida aos aposentos com a vigilância constante, iniciar o trabalho em sí era o menor dos deveres. Todos os dias, entre quatorze  e vinte horas, estava de prontidão para, se indicada, fazer o seu trabalho. Às sextas entrava mais tarde.  Era simples: preparar a cama, ver as condições de limpeza do banheiro, toalhas brancas, os chinelos do chefe, o estoque da geladeira - agua mineral sem gás, francesa, sempre. O uísque ficava sempre no mesmo lugar e a quantidade de gelo tinha que ser sempre a mesma. Só viu o
presidente por duas vezes. Muito rápido. Apenas respondeu o gentil boa noite que recebeu. Era uma sensação maravilhosa.

O Potomac, mais uma vez, tinha congelado. A vista do carro era curiosa. Mesmo não dando para ver muito, pois o trafego era perigoso, nas paradas dos cruzamentos os olhares se dirigiam para a imensa massa branca, desafiadora e perigosa.

Rodomack Sveliano, um servio que emigrara ainda jovem para os USA, dirigia seu Buick pensando na missão que havia recebido de seus chefes na CIA. Químico de profissão, cedo passou para o mundo da espionagem. O Presidente da Venezuela havia chamado o colega americano, em plena ONU, de diabo, de demônio, de monstro. Ele vai pagar caro. Foi a frase final que ouviu na sala de reuniões.

Beck. Alfred Beck era o nome completo do chefe da missão. Havia durante os anos sessenta morado em Caracas. Era assessor do encarregado dos negócios da embaixada americana. Os negócios envolviam tudo. Exportação de petróleo, situação das companhias americanas na Venezuela e suas intimas relações com os poderosos da época. Casado com uma venezuelana, Alfred falava um espanhol perfeito. Sua infancia na California, o ajudara muito no aprendizado. Os meninos da Escuela N S de Guadalupe eram seus companheiros de futebol e de hablar.

Um dos colegas de Los Angeles tinha entrado para um seminário e agora era pároco de uma linda igreja em Caracas. Onde Concepcion ia sempre se confessar e assistir, contrita, a missa das sextas, onde o sermão a emocionava sempre. D. Lauro de Almendra y Dios era o padre perfeito. Falava pouco mas dizia muito.

Era assunto comum entre ela e Pepe: o sonho de morar nos Estados Unidos. Um tio da  Concepcion estava em Miami ha mais de trinta anos e, bem de vida,  ajudava os parentes. Era padrinho dela e a convidava sempre para se mudar. Nada mais difícil, nos tempos do Comandante, do que conseguir um visto para os USA.

Alfred sempre se comunicava com o padre Lauro, principalmente, quando ele voltava de férias a Los Angeles para as festas com a familia. Foi fácil pedir. Mais facil ainda conseguir. Na primeira semana de janeiro jantou com o velho amigo e pediu-lhe ajuda. Precisava de alguém de confiança em Caracas

Nos momentos anteriores a missa daquela sexta feira D. Lauro perguntou a Concepcion sobre seus sonhos de se mudar. Continuam? Sim, mas como está dificil…O padre sabia de tudo sobre ela. Onde trabalhava. Onde morava. Foi fácil dizer que poderia ajudá-la a transformar o sonho em realidade.

O sorriso dela contagiou Pepe. “A missa foi boa, hein? A moto nova nem foi notada até que sentou e colocou o capacete rosa comprado especialmente pra ela. Foram a um pequeno bar onde sempre comiam uma pizza antes de levá-la ao palácio. Ele ouviu encantado o segredo dela. Dois green cards era tudo que precisavam. A partir daquela conversa não eram mais amigos. Eram cúmplices e namoravam firme. Florida, precisamente Clearwater Beach, onde morava um velho amigo que estava muito bem de vida, era seu sonho.

O motorista do Embaixador, por coincidência, conhecia a igreja e o padre. Foi ele que entregou o mimo da embaixada ao pároco. Todos os anos o embaixador mandava um presentinho para o reverendo. Americano, filho de venezuelanos, ia sempre as festas comemorativas do seu país e "los secretas"  nunca desconfiaram da paróquia.

Rodo, era assim que os mais íntimos o chamavam, tinha sido, durante seus anos sérvios, uma autoridade definitiva em descobrir formulas indolores de eliminação de inimigos. Guardas - chuvas com estiletes, facas com pontas “vivas" e outras tantas geringonças mortíferas. Foi o que a CIA mais gostou do seu curriculum vitae.  A sua missão era simples: como matar o comandante sem chamar atenção. Passou dias estudando a personalidade da vítima. Como viajava ao exterior. Em que hotéis ficou hospedado nos últimos anos. Foi a New York. Paris. Londres. Moscou. Rio.

Hospedava-se nos mesmos hotéis. E com alguns dólares conseguia saber dos costumes da vítima. O que bebia. A que horas dormia. Se só ou acompanhado. Agua com ou sem gás. Whiskey
ou vinho. Deixava a cama arrumada ou não. O cartão de crédito, sem limite, permitia a ele todos confortos e aparencias. De atleta a executivo. De comportado, a homem da noite. Quando voltou a Washington já tinha seu plano perfeito. Uma gota apenas de um composto de polônio, misturado ao veneno da aranha teia de funil, a fêmea, australiana, seria bastante para
matar um ser humano.  Em alguns meses após a ingestão. Tinha sido sua tese de formatura e nunca havia tido  uma oportunidade de aplicar na prática. Estava ansioso

A partir daquele fim de semana tudo giraria em torno da Concepcion. A colocaçãodo  “ob" passou a ser muito importante. Afinal de contas tudo dependeria de como passar pela dureza da segurança. A seringa, com êmbolo, agulha e a gota, não passava de um centímetro. Auto destrutiva, a pequena máquina da morte era resultado de anos de esforço na identificação de materiais plásticos de alta resistencia e com desempenho à prova de qualquer situação. As instruções eram claras. Não deveria tomar um susto quando injetasse a gota na garrafa de agua mineral, sem gás. Evian, sempre. A agua se tornaria, de imediato, branca como se tivesse recebido leite. Era a prova de que estava tudo certo. Apenas cinco segundos e voltaria à sua transparencia habitual. Logo depois iria para o banheiro e um jato de água quente destruiria o invento.

A menstruaçao chegou, como previra, na quarta feira, e nos dois dias seguintes o sangue jorraria na quantidade certa para que o absorvente desse às seguranças, tranquilidade para não exigir a retirada total das roupas. Já era amiga das encarregadas da “revista” e a chefe cubana adorava dividir os "panes de jamon” que trazia de regalos.

O Comandante tinha viajado a semana inteira. Uma visita às areas de petróleo que
estavam sendo reformadas, com a substituição das velhas bombas por equipamento novo vindo do Irã ( mas produzidas na Alemanha), e com financiamento chinês, o deixara muito cansado. Só recebeu os auxiliares mais chegados e, cedinho, se recolheu aos aposentos.

Exatamente às tres horas a moto novinha do Pepe deixou a feliz namorada no portão de serviços do Palácio. Ele tremia um pouco. Afinal de contas o futuro do casal estava sendo decidido naquela tarde e a vida dela também.  Mas acalmou rápido. Na garupa havia rezado muito, pedindo a Nossa Senhora de Guadalupe, da qual era devota, proteção e paz para fazer bem o seu trabalho e garantir o futuro sonhado.

A cubana a olhou, com fome como sempre e recebeu os docinhos esperados.  Trocou de roupa e junto com as outras meninas  esperou, com muita fé, que fosse escolhida para preparar o quarto do Chefe. Dolores de Assuncion, a cubana, meteu a mão na caixa (onde guardava os nomes das mucamas para o sorteio) e pronunciou a palavra mais esperada: Concepcion, para os aposentos do chefe. Elza Allures, para a sala de jantar. Cristina Alvear, para a cozinha. As outras sete poderiam ir pra casa.

Havia colocado dois absorventes e o ob. Adaptar a seringa dentro do pequeno canudo de algodão não tinha sido difícil. Retirar, sim, era muito complicado. Mas havia treinado bastante e em dois segundos estava lavando a peça e caminhando para o frigobar. Susto maior não poderia ter quando a porta foi aberta e o guarda-costa do Presidente perguntou se estava tudo bem. Sim, tudo ok. O brutamontes saiu e a porta da pequena geladeira deixou ver as garrafas que ela várias vezes arrumou.  Pegou a primeira delas e, como um raio, injetou a agulha. A áqua ficou branca e transparente em um piscar de olhos. O calor que a gota gerava servia também para selar o plástico e evitar qualquer vazamento. Na pia um jato dagua muito quente destruiu a seringa.

Repôs a garrafa e caminhou serena para arrumar os travesseiros, tres de cada lado. Ligou a televisão no canal preferido do Chefe, fechou as cortinas, ajeitou os chinelos. As toalhas sempre muito brancas ficavam ao lado do roupão, com os símbolos da pátria. Os sabonetes e cremes eram sempre novos, assim como a escova de dentes. Tudo cercado de cuidados merecidos pelos temores dos tempos. A banheira ficava enchendo, enquanto fazia as outras obrigações e esperava o momento da temperatura chegar aos 28 graus determinados para espalhar os sais perfumados.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Doze milhões de nãos


Não bastou reinstalar a inflação. Desorganizar a economia nacional que havia saído do "ninguém sabe o preço de nada", também não importou. Vender energia a preço vil, não era importante. Dar regalias aos fabricantes de automóveis e geladeiras, também não. Assim como emprestar dinheiro aos que não precisavam, a juros negativos, enquanto aos necessitados verdadeiros eram cobradas as taxas mais altas do mundo.
Estimular encher os tanques de gasolina barata, era um barato. Matraquear bondades falsas era um prazer diário. Falsear dados dos dinheiros públicos era o deleite dos que, embora sabendo do crime que praticavam - pequenos nazistas tupiniquins - preferiam manter seus prazeres passageiros, a gritar contra os absurdos praticados, destinados unicamente a enganar a população com um torpe e traiçoeiro motivo: ganhar uma eleição.
Idolatrar falsos líderes e tentar criar novos à custa de esmolas mensais, foi uma tentativa fracassada. Usar a corrupção como arma de dois canos: um para enriquecer e outro para desmoralizar a empresa brasileira, foi um escorregão traumático.
Destruir as empresas estatais, aproveitando suas fraquezas de origem - não tem donos, nem quem cobre resultados - foi uma viagem tenebrosa. Os
verdadeiros donos, os cidadãos brasileiros, testemunharam a mais absurda e contundente bandidagem com resultados tenebrosos para todos.
Mas o maior mal, o mais nefasto resultado de toda esta melancólica ladainha, foi o desemprego gerado por tanta desonestidade. Os doze milhões de brasileiros - multipliquemos por três ou quatro - incluindo os membros da familia de cada um, estão pagando o preço terrível da boa fé. O amargor profundo de ter acreditado em promessas vãs e desonestas que trouxeram, para cada um deles, sofrimento imerecido, dor inaceitável e desesperança que, ainda hoje, os deixa sem paz para dormir, para acreditar no futuro melhor para sí próprio e seus filhos.
O Brasil, entretanto, vai sair desta encrenca, armada por maus cidadãos, por quadrilhas organizadas e patrocinadas por quem dispunha de poder.
Vai sair. Falando a verdade, discutindo os erros passados e confrontando a necessidade de enfrentar um porvir cheio de dificuldades. É preciso, daqui pra frente, usar a comunicação, não para anúncios fantasiosos, mas para informar às pessoas, sem economês enganador, os problemas encontrados, oferecendo as soluções que, se exequíveis, possam ser avaliadas e questionadas por todos.
Só o trabalho, aliado a uma educação de base que nos emparelhe com países desenvolvidos e um esforço nunca antes experimentado, em busca de produtividade e inovação, nos trará ao caminho do verdadeiro progresso. Não com o ganhar fácil, vendendo

favores e facilidades, mas com o denodo e a capacidade de cada um.
O Brasil não precisa só de EDUCAÇÃO de alta qualidade, nem só estradas, de portos, de aeroportos, de agua limpa e esgoto, de saúde, de justiça rápida e para todos, de impostos justos e de fácil arrecadação, de menos burocracia ( razão de tantos males) mas, especialmente, de aprender a lidar com a democracia verdadeira, onde o igualar de todos prevaleça sobre as regalias de alguns. Onde a qualidade pessoal não seja derrotada pela indicação de poderosos. Onde os empresários ganhem dinheiro mercê de seus atributos em produzir um serviço ou um produto de qualidade e a preço competitivo, e não graças a ajuda que deu a alguém. Finalmente, onde a NAÇÃO seja maior do que todos nós.

Antenor Barros Leal

O PRODUTOR

Era comum o desfile de carros luxuosos na Maximilian Strasse, em Munich. A super mercedes preta que estacionou no hotel Vier não chamou atenção de ninguém. Era apenas mais uma. As antenas retráteis já não eram necessárias. Os contatos mantidos na curta viagem do aeroporto até o hotel, já garantiam que tudo estava bem. Nada fora do padrão. 
Do seu quarto no Vier, melhor cinco estrelas da cidade, olhava tranquilo a imensa avenida, apinhada de automóveis e, com o binóculo, apreciava as flores que tanto adorava nos meses de junho. Quando chegou ao hotel foi recebido com honras, quase oficiais. Afinal de contas, era o maior produtor de algodão do mundo e, de suas imensas fazendas na India e no Paquistão, abastecia as melhores fábricas de tecidos da Europa.
No bar, os garçons ja sabiam de sua generosidade e os drinques, servidos como se chás fossem, eram razões de gorjetas inesquecíveis. Todos sabiam de quem se tratava. Jalgaon Uidapur era o nome mais esperado naquele mês. Mas ninguém sabia do que ele tratava. Além do algodão.
Os lucros com o algodão eram peanuts, comparados ao seu verdadeiro negocio. Os dois filhos, Ahmed e Zagran cuidavam de sua enorme produção de ópio, e usavam a cidade de Munich para os encontros de avaliação do mercado e recebimento de valores. Ali eram negociadas milhares de toneladas de haxixe para o rico mercado europeu.  A cocaína, que vinha das Americas, tinha uma rota própria e os mercados não se confundiam. As reuniões que marcava com os mexicanos e colombianos, a cada seis meses, delimitava áreas de atuação e trocavam informes sobre como atingir, com segurança, para o crescimento seguro de seus clientes.
Nunca viajava em aviões de carreira. De Haryana, onde tinha sua residência familiar, ostentava quatro aviões executivos, de marcas diferentes, mas com autonomia de cruzar distancias de mais de 6000 quilômetros. No Paquistão, suas propriedades estavam protegidas por importantes ligações governamentais. O ópio era produzido no Afeganistao, em Mazarin Sharif, onde a maior parte da população dependia de seus humores.
Os filhos não se hospedavam no mesmo hotel, nem viajavam no mesmo avião. Cada um tinha o seu. Os hóspedes não se incomodavam com as pessoas no bar. Os árabes faziam muito mais algazarra. quase iguais aos australianos e sul americanos, quando bebiam uísque e cerveja, entremeados carne e chucrute. Os hindus, ao contrario, primavam pelo silencio e cortesia.
Na manhã do dia seguinte, depois de sessões de massagem com especialistas birmanesas, que completavam seus afazeres com agrados emocionantes, estava pronto para o encontro principal com as fabricas de tecido europeias e seu time de técnicos, para tratar da qualidade do produto e suas avaliações sobre logística, preços e concorrentes.
Na mesma hora, os filhos estavam conversando com os “representantes” no continente europeu. Como iam as vendas. Qual país se mostrava mais acessível aos produtos, quais policias estavam dentro do “sistema”, respeitando o cumprimento dos deveres de silencio, modéstia e conhecimento das regras de mercado.
Tudo parecia bem. Como nos dez anos anteriores nada indicava mudança no ambiente.  Um dos mais importantes agentes, do negócio dos “meninos", Harat Bagran, morava na Alemanha já há oito anos. Era um exemplo de gerente cumpridor de metas e, por isso, ganhador de prêmios excepcionais. Sempre manteve comportamento sem chamar atenção de ninguém. Até que se apaixonou por uma vendedora de jóias. Do relógio Piaget Emperador Temple, de três milhões de euros, que comprou para a loira, até o presente de aniversário, uma Mercedes sport, que ganhou da esposa, tinha uma vida regrada e despercebida.
Menos para a policia que o incluiu no rol do  "a cobrir”. Pareceu estranho aos homens da lei, sua presença no hotel, sempre que o magnata indiano aparecia. Por qual razão, se não vendia algodão? O que o levou ao alto padrão de vida que recentemente passou a exibir? A curiosidade policial levou a descobertas muito intrigantes. Trabalhava no Edifício Stern, um dos mais caros da cidade e recebia pessoas de vários países. Quem eram seus interlocutores? A primeira conclusão foi surpreendente: a maior parte deles chegava a Munich em aviões particulares. E caros. Suas malas, nem  seus passaportes, nunca eram examinados pois vinham sempre de países europeus. Eram pontos ocultos que levaram à inteligencia alemã a indagar e pedir ajuda aos companheiros do tratado de Maastricht. 
Os dois filhos entraram no Hotel e, diretamente para o bar, onde beijaram carinhosamente o velho. Com eles o amigo Harat. Alfried, era o agente travestido de garçon. Treinado na temida Stassi era usado, pela sua idade mais avançada, para postos especiais. Já estava como “garçon" do hotel ha mais de seis meses. Trabalhara noutro restaurante em Berlin. Morava numa casa que não era a sua. No mesmo padrão dos colegas. Usava todos os tipos de “gadgets"que se conhece. Cameras e gravadores. Relógios com rádio freqüência. Sapatos com agulhas assassinas. Suas luvas portavam reagentes para identificação de impressões digitais. Seus setenta anos não lhe tiraram nada da sua capacidade de observar e “trabalhar”.
A ordem era clara. Saber tudo do indiano. De seus contatos, das mulheres que recebia, dos convidados para os jantares fabulosos que oferecia. Os beijos carinhosos dos dois rapazes identificaram para o velho espião de quem se tratava. Diferentes do abraços formais de quem os acompanhava. 
O velho Jalgaon - nome dado pelos pais para homenagear a cidade natal - tinha sido oficial da Marinha hindu. Recebera medalhas pelos seus trabalhos na área de segurança e comunicação. Revolucionou os métodos de contato a longa distancia. Dos pombos correio, aos sinais de luz diferentes de outros países. Experimentado, desconfiado e atento aos movimentos resolveu demorar menos do que o habitual e, alegando cansaço, subiu para sua suite presidencial. Não gostara de ver garçons novos a sua volta. Despediu-se formalmente, inclusive dos filhos.
A velha lanterna, que lhe acompanhava sempre, foi tirada da mala de mão e “armado" foi para a janela. A vista para o Englishergarten lhe dava excelentes condições de visibilidade. O velho Helmut, seu sargento de ordens, estava, como combinado de plantão. Os sinais de luz começaram. As mensagens tão cedo surpreenderam o velho marinheiro. “Avise aos meninos que não gostei do ambiente do bar do hotel”. Saiam da Alemanha, rápido. O whatsaap de Zagran trouxe um recado combinado: “ha um incêndio na fazenda”.
Os aviões dos dois, como um raio, foram abastecidos e os pilotos, antes dos patrões chegarem, já fizeram contato com a torre anunciando planos de voo. Um Falcon iria para Moscou. O Jetstream, para Ankara.
Foi um alivio para o presidente das organizações receber o sinal de volta, assinado pelo fiel Helmut. Já se foram. Gratos.
Dormiu tranquilo. A manhã o despertou com um sol lindo e desceu para o “fruhstuck”. O café da manhã em Munich era sua refeição preferida. Não gostava de comer na suite. Descia para o enorme buffet e descontava os vegetais que era obrigado a comer em casa e devorava as salcichas e os liverwurst por mais de uma hora. Lia os jornais ali mesmo. Falava alemão perfeitamente. Era um crédito de seus tempos de oficial estagiando na marinha alemã. A India comprava barcos de guerra da Alemanha, autorizada pelos patrões ingleses, pois forneciam a maior parte das armas embarcadas.
Os poucos funcionários a disposição no buffet eram conhecidos do hindu. Embora não fosse “hora"de gorgeta deixava sempre uma nota de cem euros para a divisão entre eles. Todos conhecidos. Não encontrou, embora procurasse, o coroa do bar.
Mas não estava tranquilo como nas outras centenas de vindas a Munich. 
Enfrentou os compromissos agendados. Recebeu todos os clientes com a alegria de sempre e entregava feliz o presente trazido para cada um. Um conjunto de camisas feitas com o melhor algodão do mundo e sob medida. Conhecia os gostos e tamanhos de cada um. Afinal de contas, no casamento da filha, mandara o convite, com passagens de primeira classe incluídas e com pedidos das medidas corporais, para a feitura das vestimentas típicas desse tipo de festa.
Visitou fábricas novas e fez palestras na Associação Comercial sobre a India e sua difícil relação com o Paquistão. Mas acreditava que a paz, sairia vencedora.
No jantar que ofereceu aos amigos no Atelier, único duas estrelas do Michelin na cidade, degustou, como Pantagruel, tudo que tinha direito. A única coisa não alemã na mesa era o vinho. O francês Henri Parantoux, qualquer safra escolhida por seu somellier preferido, estava reservado para ele, ha mais de trinta dias. O regabofe que começou sóbrio as dezenove horas, terminou a três da manhã, com os motoristas levando seus patrões, todos, tontos e felizes.
O primeiro relatório do Alfried não agregou muita coisa para os camaradas da policia secreta. Mas seu lugar no hotel estava garantido. E sua primeira obrigação era anotar todos os movimentos dos hindus. 
Dormiu até meio dia. Nunca havia bebido tanto desde seus tempos de cerveja, nos bares pobres de Hamburgo onde, como marinheiro, freqüentava nas noites de sábado. Passeou na cidade
andando e, de carro, foi visitar o Museu.   


 

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A POLÍTICA DAS DROGAS É UMA DROGA



Felizmente o mundo acordou  para discutir abertamente esta insanidade praticada com relação ao  controle das drogas. Associada a isto vem a indagação do limite que é dado pelos cidadãos a funcionários em Brasilia ou Washington para impor limites e barreiras ao comportamento de qualquer pessoa. Você só pode comprar um remédio de tarja preta se tiver uma receita.  Se precisar, às duas horas da manhã, sem aquele papelzinho do médico, não há jeito de comprar. A não ser que tenha um "amigo” na farmácia. Se você consumir na festa de aniversario do  neto um bombom com licor, será preso na Lei Seca. Mas se tiver cheirado cocaína ou fumado maconha, com um tira-gosto de ecstasy, vai passar incólume. O poder da burocracia ou dos bem intencionados para nos “proteger" é imenso.

No problema  DROGAS a regulamentação atual é um escárnio à lógica. O consumo só aumenta. Portanto está liberado. É mais ou menos como jogo do bicho, que continua, acreditem, proibido. Setecentos por cento em dez anos, dizem os estudiosos. Os traficantes ficam mais poderosos e ricos. E inocentes morrem aos  montes.  

A Drug Enforcement Agency, a famosa DEA, o órgão controlador das drogas dos USA, declarou,em seu site, recentemente, que os americanos gastaram com cocaína, heroína, maconha e comprimidos, no ano passado, a modesta soma de sessenta e quatro bilhões de dólares, bilhões, mesmo, com B. E não tiveram vergonha de publicar que apreenderam o equivalente a um bilhão, apenas. É a estupidez lida em moeda.
                                                                                                        
A atividade DROGA é um negócio como outro qualquer. Vamos lá: se um simples mortal precisar de cinquenta mil reais, em cash, será necessário avisar a seu banco com dois dias de antecipação. E o gerente ainda vai chama-lo para assinar um documento especial para mandar para a receita Federal. Como comprar uma tonelada de cocaína? Como se leva um milhão de dólares para a Bolivia, Colombia ou Peru, em CÉDULAS, verdadeiras, sem um cara entendido de finanças e que tenha bons relacionamentos no mercado? Um diretor financeiro? Como transportar esta baba de dinheiro sem alguém que entenda profundamente de logística? Um diretor de logística? Quem vai examinar o produto comprado?  A qualidade é realmente a negociada? Um químico? Agora, com o produto nas mãos, já testado, precisamos de uma pessoa para juntar 
ao Diretor de Logística, pois o mercado está esperando. Um diretor de Transportes, conhecedor 
das estradas, dos aeroportos legais com "galhos" quebrados, das pistas de propriedade das 
“empresas" concorrentes ou alugadas, dos portos, de mar e rios,  onde pequenos barcos podem chegar sem problemas, dos horários em que o policiamento está mais presente ou os presentes que recebem agrados.

Produto comprado, testado, transportado. Chegou ao destino. Vamos dizer o Rio de Janeiro. O Diretor Comercial, o cara que lida com os compradores intermediários, que pagam antecipado, com dinheiro contado,  sabendo o estoque disponível e  a quantidade para cada um deles, aciona  seu sistema de distribuição. A ponta de tudo, o menos importante, mas em maior número,  aparece agora: o vendedor, o cara que enfrenta as durezas do policiamento, a incerteza da volta, a briga pelos pontos mais procurados pela clientela e, às vezes, disputados, a tiros pelos concorrentes ou vigiados pela policia. A cobrança dispensa advogado. Quem não paga, dança. No baile da morte.

O Diretor Comercial impressionou o chefe quando, numa reunião de “acionistas”, fez um speech de natureza comercial: já temos cocaína e ecstasy para os ricos, maconha para os da classe média e  não podemos abandonar os mais miseráveis que formam um grande nicho de consumo. E dirigindo o olhar aos diretor químico, pediu: Desenvolva um produto barato, pois sou um CRACK de vendas. E aí surgiu a cracolândia tão badalada pelos jornais, atendendo aos miseráveis mais miseráveis e engordando, mais ainda, a bolsa dos produtores.                                                             

Já a impressionante Diretoria de Marketing tem atuação global.  No ano passado, um filme sobre Wall Street mostrava cenas de consumo de tudo que é droga. Da primeira à ultima cena, os espectadores viam artistas glamourosos cheirando cocaína, fumando maconha, solvendo comprimidos milagrosos, tudo apimentado com lindas mulheres.  Uma outra produção, hollyudiana, cujo título recomendava "não olhar para trás", foi financiada, provavelmente, por uma cadeia de hotéis, uma fábrica de automóveis e “why not” pelo sistema da World Drug Corporation, pois os artistas não davam um só passo sem antes dar uma cheirada e acender um baseado. Com carreira, charme e tudo mais.

Uma overdose matou uma cantora inglesa ou um ator americano. As manchetes esperneiam. Morrem mais de sessenta mil, só no México, entre traficantes, policiais (honestos e corrompidos)  e inocentes. Não tem qualquer importância.  Quantos jovens, por uso ou porte, superlotam as miseráveis prisões brasileiras, tornando-se alunos da bandidagem? Quantas crianças são usadas como “aviões” e tem destruidos seus futuros? 

Estamos enfrentando profissionais bem pagos, organizados e com metas a cumprir. Somos amadores. Uma profunda revisão no conjunto de leis que tratam dessa importante matéria precisa ser feita imediatamente. A não ser que se queira perpetuar uma atividade que cresce a olhos vistos, apesar de milhares de pessoas bem intencionadas, imaginarem que o modelo de “combate" possa trazer algum resultado.


Felizmente, parece que acordamos.




Antenor Barros Leal