Era comum o desfile de carros luxuosos na Maximilian Strasse, em Munich. A super mercedes preta que estacionou no hotel Vier não chamou atenção de ninguém. Era apenas mais uma. As antenas retráteis já não eram necessárias. Os contatos mantidos na curta viagem do aeroporto até o hotel, já garantiam que tudo estava bem. Nada fora do padrão.
Do seu quarto no Vier, melhor cinco estrelas da cidade, olhava tranquilo a imensa avenida, apinhada de automóveis e, com o binóculo, apreciava as flores que tanto adorava nos meses de junho. Quando chegou ao hotel foi recebido com honras, quase oficiais. Afinal de contas, era o maior produtor de algodão do mundo e, de suas imensas fazendas na India e no Paquistão, abastecia as melhores fábricas de tecidos da Europa.
No bar, os garçons ja sabiam de sua generosidade e os drinques, servidos como se chás fossem, eram razões de gorjetas inesquecíveis. Todos sabiam de quem se tratava. Jalgaon Uidapur era o nome mais esperado naquele mês. Mas ninguém sabia do que ele tratava. Além do algodão.
Os lucros com o algodão eram peanuts, comparados ao seu verdadeiro negocio. Os dois filhos, Ahmed e Zagran cuidavam de sua enorme produção de ópio, e usavam a cidade de Munich para os encontros de avaliação do mercado e recebimento de valores. Ali eram negociadas milhares de toneladas de haxixe para o rico mercado europeu. A cocaína, que vinha das Americas, tinha uma rota própria e os mercados não se confundiam. As reuniões que marcava com os mexicanos e colombianos, a cada seis meses, delimitava áreas de atuação e trocavam informes sobre como atingir, com segurança, para o crescimento seguro de seus clientes.
Nunca viajava em aviões de carreira. De Haryana, onde tinha sua residência familiar, ostentava quatro aviões executivos, de marcas diferentes, mas com autonomia de cruzar distancias de mais de 6000 quilômetros. No Paquistão, suas propriedades estavam protegidas por importantes ligações governamentais. O ópio era produzido no Afeganistao, em Mazarin Sharif, onde a maior parte da população dependia de seus humores.
Os filhos não se hospedavam no mesmo hotel, nem viajavam no mesmo avião. Cada um tinha o seu. Os hóspedes não se incomodavam com as pessoas no bar. Os árabes faziam muito mais algazarra. quase iguais aos australianos e sul americanos, quando bebiam uísque e cerveja, entremeados carne e chucrute. Os hindus, ao contrario, primavam pelo silencio e cortesia.
Na manhã do dia seguinte, depois de sessões de massagem com especialistas birmanesas, que completavam seus afazeres com agrados emocionantes, estava pronto para o encontro principal com as fabricas de tecido europeias e seu time de técnicos, para tratar da qualidade do produto e suas avaliações sobre logística, preços e concorrentes.
Na mesma hora, os filhos estavam conversando com os “representantes” no continente europeu. Como iam as vendas. Qual país se mostrava mais acessível aos produtos, quais policias estavam dentro do “sistema”, respeitando o cumprimento dos deveres de silencio, modéstia e conhecimento das regras de mercado.
Tudo parecia bem. Como nos dez anos anteriores nada indicava mudança no ambiente. Um dos mais importantes agentes, do negócio dos “meninos", Harat Bagran, morava na Alemanha já há oito anos. Era um exemplo de gerente cumpridor de metas e, por isso, ganhador de prêmios excepcionais. Sempre manteve comportamento sem chamar atenção de ninguém. Até que se apaixonou por uma vendedora de jóias. Do relógio Piaget Emperador Temple, de três milhões de euros, que comprou para a loira, até o presente de aniversário, uma Mercedes sport, que ganhou da esposa, tinha uma vida regrada e despercebida.
Menos para a policia que o incluiu no rol do "a cobrir”. Pareceu estranho aos homens da lei, sua presença no hotel, sempre que o magnata indiano aparecia. Por qual razão, se não vendia algodão? O que o levou ao alto padrão de vida que recentemente passou a exibir? A curiosidade policial levou a descobertas muito intrigantes. Trabalhava no Edifício Stern, um dos mais caros da cidade e recebia pessoas de vários países. Quem eram seus interlocutores? A primeira conclusão foi surpreendente: a maior parte deles chegava a Munich em aviões particulares. E caros. Suas malas, nem seus passaportes, nunca eram examinados pois vinham sempre de países europeus. Eram pontos ocultos que levaram à inteligencia alemã a indagar e pedir ajuda aos companheiros do tratado de Maastricht.
Os dois filhos entraram no Hotel e, diretamente para o bar, onde beijaram carinhosamente o velho. Com eles o amigo Harat. Alfried, era o agente travestido de garçon. Treinado na temida Stassi era usado, pela sua idade mais avançada, para postos especiais. Já estava como “garçon" do hotel ha mais de seis meses. Trabalhara noutro restaurante em Berlin. Morava numa casa que não era a sua. No mesmo padrão dos colegas. Usava todos os tipos de “gadgets"que se conhece. Cameras e gravadores. Relógios com rádio freqüência. Sapatos com agulhas assassinas. Suas luvas portavam reagentes para identificação de impressões digitais. Seus setenta anos não lhe tiraram nada da sua capacidade de observar e “trabalhar”.
A ordem era clara. Saber tudo do indiano. De seus contatos, das mulheres que recebia, dos convidados para os jantares fabulosos que oferecia. Os beijos carinhosos dos dois rapazes identificaram para o velho espião de quem se tratava. Diferentes do abraços formais de quem os acompanhava.
O velho Jalgaon - nome dado pelos pais para homenagear a cidade natal - tinha sido oficial da Marinha hindu. Recebera medalhas pelos seus trabalhos na área de segurança e comunicação. Revolucionou os métodos de contato a longa distancia. Dos pombos correio, aos sinais de luz diferentes de outros países. Experimentado, desconfiado e atento aos movimentos resolveu demorar menos do que o habitual e, alegando cansaço, subiu para sua suite presidencial. Não gostara de ver garçons novos a sua volta. Despediu-se formalmente, inclusive dos filhos.
A velha lanterna, que lhe acompanhava sempre, foi tirada da mala de mão e “armado" foi para a janela. A vista para o Englishergarten lhe dava excelentes condições de visibilidade. O velho Helmut, seu sargento de ordens, estava, como combinado de plantão. Os sinais de luz começaram. As mensagens tão cedo surpreenderam o velho marinheiro. “Avise aos meninos que não gostei do ambiente do bar do hotel”. Saiam da Alemanha, rápido. O whatsaap de Zagran trouxe um recado combinado: “ha um incêndio na fazenda”.
Os aviões dos dois, como um raio, foram abastecidos e os pilotos, antes dos patrões chegarem, já fizeram contato com a torre anunciando planos de voo. Um Falcon iria para Moscou. O Jetstream, para Ankara.
Foi um alivio para o presidente das organizações receber o sinal de volta, assinado pelo fiel Helmut. Já se foram. Gratos.
Dormiu tranquilo. A manhã o despertou com um sol lindo e desceu para o “fruhstuck”. O café da manhã em Munich era sua refeição preferida. Não gostava de comer na suite. Descia para o enorme buffet e descontava os vegetais que era obrigado a comer em casa e devorava as salcichas e os liverwurst por mais de uma hora. Lia os jornais ali mesmo. Falava alemão perfeitamente. Era um crédito de seus tempos de oficial estagiando na marinha alemã. A India comprava barcos de guerra da Alemanha, autorizada pelos patrões ingleses, pois forneciam a maior parte das armas embarcadas.
Os poucos funcionários a disposição no buffet eram conhecidos do hindu. Embora não fosse “hora"de gorgeta deixava sempre uma nota de cem euros para a divisão entre eles. Todos conhecidos. Não encontrou, embora procurasse, o coroa do bar.
Mas não estava tranquilo como nas outras centenas de vindas a Munich.
Enfrentou os compromissos agendados. Recebeu todos os clientes com a alegria de sempre e entregava feliz o presente trazido para cada um. Um conjunto de camisas feitas com o melhor algodão do mundo e sob medida. Conhecia os gostos e tamanhos de cada um. Afinal de contas, no casamento da filha, mandara o convite, com passagens de primeira classe incluídas e com pedidos das medidas corporais, para a feitura das vestimentas típicas desse tipo de festa.
Visitou fábricas novas e fez palestras na Associação Comercial sobre a India e sua difícil relação com o Paquistão. Mas acreditava que a paz, sairia vencedora.
No jantar que ofereceu aos amigos no Atelier, único duas estrelas do Michelin na cidade, degustou, como Pantagruel, tudo que tinha direito. A única coisa não alemã na mesa era o vinho. O francês Henri Parantoux, qualquer safra escolhida por seu somellier preferido, estava reservado para ele, ha mais de trinta dias. O regabofe que começou sóbrio as dezenove horas, terminou a três da manhã, com os motoristas levando seus patrões, todos, tontos e felizes.
O primeiro relatório do Alfried não agregou muita coisa para os camaradas da policia secreta. Mas seu lugar no hotel estava garantido. E sua primeira obrigação era anotar todos os movimentos dos hindus.
Dormiu até meio dia. Nunca havia bebido tanto desde seus tempos de cerveja, nos bares pobres de Hamburgo onde, como marinheiro, freqüentava nas noites de sábado. Passeou na cidade
andando e, de carro, foi visitar o Museu.
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